terça-feira, 13 de abril de 2010

Onde está Maria Helena?


Dei uma olhada em meus e-mails antes de vir para São Pedro, pois fazia tempo que não passava por ali, e havia muitos na caixa de entrada, de amigos, de pessoas da lista querendo saber onde eu me encontrava, se estava bem de saúde, viajando, o que estava acontecendo, porque havia sumido daquele jeito, todos os bilhetes muito amorosos, pessoas lindas, graças a Deus! Estou ótima, em alegria, sob o Sol! Preciso dar notícias, pensei eu. Mas eram muitos os e-mails individuais e embora haja um grande amor pelas manifestações específicas de cada alminha que ali se expressa, confio que nossa ligação se mantenha por canais mais invisíveis, de consciência coletiva, e longe da ilusão da separatividade, sopro carinho através desses túneis até o coração de cada um. Havia certa urgência em fazer o supermercado, as compras da semana para casa e para o sítio. E, compras feitas, já estava com o pé na estrada!

Seguia observando as janelas dentro e fora de mim, revezando de uma para outra, para que as paisagens de ambos os lados me trouxessem sentido e conforto, levando em consideração essa árdua e prolongada estadia na terceira dimensão, ciclo que tem exigido confiança e entrega à Luz, mesmo quando nada do lado de fora indica a possibilidade dessa presença. Pelo espelho retrovisor via meu rosto, face/corpo que uso nesta experiência, olhos por trás dos simbólicos óculos de lentes cor-de-rosa, os cabelos compridos – os interessantes fios brancos muito bem mesclados aos castanhos – presos em um rabo-de-cavalo, o lenço quadriculado árabe envolvendo pescoço e peito, a antiga jaquetinha de veludo caramelo, as velhas calças jeans de boca reta, botas azuis de camurça quase até os joelhos – my blue suede shoes , a grande bolsa verde, mole, sobre o colo, creio que um conjunto, no todo, bem aquariano, bem adequado.

Escrevo em minha cadernetinha de bolsa, de folhas cor-de-creme, sem pauta, que melhor servem de pano de fundo para todo tipo de loucura, inspiração sob forma de desenho ou texto. A vida tem esse dom de ser perfeita, seja nestes trajes confortáveis, parceiros há vários invernos, roupas que a gente usa como uma luva, por gostar de não se preocupar, por gostar de respirar; seja na existência deste moleskine do tamanho exato, na caneta que desliza, seja nesta alma-falante que apesar de mim e de minhas crenças, consegue ver por si mesma a essência viva por trás da aparência das coisas, sabe onde se encontra a nossa verdadeira casa. Quando eu crescer, quero ser como ela e penso em crescer logo, como neste instante me sinto crescida, como uma criança que vive da Luz, entrando no reino dos céus.

Vitor dirige em silêncio sincronizado com o meu, enquanto escrevo, sendo assim a melhor companhia para o momento. Pela janela vejo árvores antigas, fantásticas e enquanto nos olhamos, sinto seu campo de influência-proteção e sorrio para elas em profunda gratidão. A vida pulsa em toda a parte. Não há como separar-me disso, dessa intercomunhão. Dependendo do ângulo pelo qual você olha, você pode estar dentro ou fora do templo. Hoje, estou definitivamente dentro dele. Desde cedo ouvi o anúncio, sinto a envergadura de minhas asas e, fielmente enveredando pelos corredores de acesso, respiro anseios de ressurreição.

Enfim, estamos no sítio, minha ‘Ohana, embora ‘Ohana seja um espaço dentro da gente, um espaço formado por sintonia de vibração. As hortênsias estavam afogadas em meio à grama alta e, com esse lindo fim de semana de sol podemos, finalmente, trabalhar ao redor delas, liberando-as para que se espalhem à luz, à beira da estrada. Há o que se fazer ainda por algumas tantas horas, por serem muitas, e sermos dois, os cuidadores. Vitor passou a roçadeira em torno e tirou o grosso, e eu prefiro fazer esse trabalho mais detalhado junto a elas. É tudo muito bonito e me parece um privilégio poder estar assim disponível para esta tarefa, que é, sobretudo, um trabalho interior e de parceria que me permite atravessar janelas e estar acordada no centro do peito.

Metade da semana em Florianópolis, metade em São Pedro de Alcântara. O consultório, talvez em função das buscas de nosso tempo, da premência de respirarmos em alegria como crianças em pomar cheio de frutas, talvez porque seja urgente silenciar, simplesmente soltar, voltar a face para a Realidade, permitir a transformação na orientação da Consciência, está lotado, e com isso tenho fechado as portas quase sempre por volta das 23 horas. Enquanto isso não se equilibra – e penso que logo deve se equilibrar – em vez de me conectar por tanto tempo à internet, ouvi o aviso, resolvi compensar essa polarização caprichando na introspecção, na autenticidade, deixando de lado, conscientemente, as questões repetitivas, resíduos e carências corriqueiras da personalidade em seus conflitos de ação e reação na ilusória dualidade, mosaicando, trazendo a atenção para a confecção das pequenas pecinhas, para as nuances de cores, deixando o coração mostrar onde colocar o que, treinando ser conduzida por esse feeling, pela intuição, trazendo a calma do interior do templo para o grosso da matéria, criando, talvez, uma nova harmonia, tocando a eternidade, de torquês na mão, até as três da madrugada. Algo, de dentro para fora da casinha, está sendo desconstruído, embora o resultado de tudo isso seja experimentado de forma muito diferente pelos integrantes desta experiência. Os ventos sopram, as árvores caem, a terra treme, confundindo os especialistas. Busco inspiração para os signos de fogo. Há que se esperar pelo tempo certo. Algo muito mais inteiro deve ser revelado, mas falta ainda sustentação. Algo cresce dentro do útero, e a pressa em exaltá-lo pode comprometer, romper o veículo/invólucro. Portanto, há que se cumprir esse tempo de gestação sem desviar-se muito, apesar de toda essa simultaneidade. Há que se cortar cerâmica, vidro, polir, colar, rejuntar, silenciar.

Sempre soube que algum dia seria também mosaicista. Começou 2010 e disse, deste ano não passa. Havia uma lojinha no alto da Padre Roma em que se davam aulas para curiosos, iniciantes que nem eu, mas quando fui procurá-la, já não mais existia. A mulher do pai da Grazi, a Rose, tem a casa da praia cheia de trabalhos feitos por ela, quase todos com tema floral – eu adoro flor, diz ela – e, mês de fevereiro, fomos até lá, ver se dava para aprender alguma coisa. Muita gente reunida, almoço sendo preparado, conversamos muito sobre astrologia, o mapa dela, e no final, ela me passou uma torquês e um caco de azulejo para eu cortar uma folha. Elogiou o corte dizendo que eu levava jeito, pois a peça não havia se esfarelado como era de se esperar numa primeira vez. Disse que eu usasse a cola Cascorez-extra. E antes que se conseguisse fazer mais cortes, precisávamos ir, pois Yasha tinha vôo e o trânsito da Pinheira até Floripa e até o aeroporto está sempre engarrafado nos fins de semana, principalmente no verão. Tudo indicando que deveria aprender mais por outras vias.

Então pensei: Maria Helena, você tem que encarar! Vai, mete a cara e se ancora! Respirei fundo e lá fui eu para o santo youtube, baixei tudo quanto é vídeo de gente fazendo mosaicos com seixos, vidro, pastilhas, cacos de louça caseira, sementes, pedras nobres como o mármore, as semi-preciosas e azulejos. Assisti a uns tantos, comprei todas as ferramentas indicadas, juntei louça quebrada, azulejos, pastilhas e rejunte , ganhei algum material e, depois do aniversário do Sourya, do casamento da Arlete e do Vitola no começo de março, depois da visita do Cândido, finalmente comecei. Primeiro uma tampinha de uma caixa de madeira, para ver como era colar as peças e rejuntá-las. Então parti para uma grande mesa redonda para seis pessoas, de fibra, antiga, que precisava mesmo ser reciclada, onde desenhei, como deu, uma espécie de zodíaco, doze mandalas independentes, integradas em um tema unificador, pois fechando cada uma é como se fosse iniciar um novo trabalho, ajudando-me assim a ganhar mais experiência. Vejo que ainda se pode ir além e colocar nesta mesa um céu profundo, cheio de luzes, com estrelas, naves e seres meditando em volta do centro. Gostaria de revelar portais, conexões com os outros planos e dimensões, mas, neófita, volto-me para ela, para o sentimento do tema, e deixo vir o que pode passar por este veículo, por estas ferramentas, neste momento, soltando as grandes pretensões. E é aí que estou, tendo completado o meio, as bordas e cinco signos, buscando entender- me com Leão, tentando permanecer no ponto-de-encontro e amadurecendo, vazia, mas cheia de mil idéias enquanto caminho sem muitos planos, enquanto me ocorrem imagens para o restante da peça, e depois, para muros, paredes, assoalhos, móveis, enfim! Mais uma vez a vida renasce no silêncio, enquanto ainda oscilo e respiro, ainda nesta Terra que nem sempre me parece aquela Terra que desmorona morro abaixo. Certamente, e paradoxalmente, muito está sendo construído para que se veja o que verdadeiramente vive. E como recém-nascida, vivendo o momento mais interessante de minha vida, o único, o atual, sinto a realidade do quanto somos seres criadores, do eterno fluxo de inspiração renovadora que corre através de nós, ondas desse mar infinito onde podemos surfar, passar sempre para o novo ponto, bastando estar atentos, pois que tudo que o coração pode vibrar, em alegria, a gente pode realizar!

Maria Helena

Sexta feira, 02 de abril de 2010, dia bonito de sol.

Quem tiver vontade de ver melhor como o mosaico está ficando acesse o link:

http://picasaweb.google.com.br/mhferraz/MosaicoMandalaAstrologica?fgl=true&pli=1#