quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Observador à flor da pele


Pegamos a estrada para São Pedro de Alcântara. Inconscientemente coço a mão direita, tirando a pequena casquinha do que fora uma mordida de mosquito quase cicatrizada. Uma dorzinha leve conduz-me o olhar para a mão. Uma quase-gota de sangue meio misturada com linfa aflorou lentamente do pequeníssimo furo. Sabe-se lá porque, chamou-me a atenção aquele pequenino dodói e muito mais do que ele, a maneira como é tecida a nossa corporalidade. Imaginei os tecidos úmidos por baixo da pele, e senti uma antiga estranheza da densidade daquela mão. Na mesma hora lembrei-me de viagens profundas da 'mente', e daquilo que vivem certas pessoas em ‘surto’. Em sua compulsão, cavoucam para abrir melhor a ferida, adentrando a espessa crosta, capa confinatória, atravessando as diversas camadas em busca da certeza do que é isto onde estamos, o que é, em relação ao Eu, este corpo estranho. Tinha ali diante de mim uma mão natural muito viva, pele ressecada pelo frio, por teclar muito à noite e preguiça de cremes. Veias um pouco dilatadas. E a pequena abertura com uma ameaça de sangue. Mas além de mim mesma, Algo observa meu corpo, esse lugar-base onde habito, nesta experiência-existência localizada.

Do ponto de vista dos olhos físicos, olho de cima o cachecol laranja – presente da Iamara, o grosso casaco impermeável - uma ‘campera’ comprada em Buenos Aires, à caminho de Ushuaia, calças de veludo marrom desbotado e botas sete-léguas, enquanto seguimos para o sítio.

Quem sou eu, que olho para tudo isso, para esse corpo, essas roupas em volta de mim?

Paramos em um posto de combustíveis. Carros passam na estrada enquanto abastecemos a camionete e enchemos uma bambona de diesel, encomenda do Nuno para sua Tobata.

Continuo um pouco aqui, a Maria Helena dentro do carro, e um pouco como observadora destes veículos físicos. Compreendo intimamente meus irmãos, ditos ‘surtados’, por vezes internados em uma instituição. Penso que, de certa forma, estamos todos internados nesta Terra e neste corpo. A menina bipolar e seus parentes querendo falar por ela, já que ela ‘não fala coisa com coisa’. Mas, não, não quero as informações de teus parentes, querida. Quero as tuas percepções. Lembra? Tu és o capitão de teu próprio navio. Tu tens que ser, minha amada! Veja, estamos agora aqui nesta Terra, neste corpo. No começo é dureza... Mas vai passar! Vou soprar o dodói... Vai passar! Mas tu tens que te adaptar. Tens que assumir a mestria de estar em um veículo físico, estando neste mundo sem ser deste mundo. Vem cá, me abraça, me abraça forte, sente o meu corpo, o teu corpo. Fica nele, coração! Isso passa, lembra, ‘isso também passará’!

Penso em Laing, lá atrás, nos anos de faculdade, dizendo que o sábio e o louco nadam no mesmíssimo oceano e onde um flutua o outro afunda. Penso que há estados de fato limítrofes onde é melhor ficar esperta e nadar de braçada!

Paramos o carro no meio da estrada entre o centro de São Pedro e a entrada do caminho do sítio. Mais barreiras haviam descido por todo o percurso em função das últimas chuvas. Tudo parece meio no limite. Uma retro escavadeira tira terra de um lugar e coloca em outro. Aparentemente, um caos. Fico observando. Vejo que a retro escavadeira também tem a sua ‘mão’ e que ela é comandada pelo condutor da máquina. E aquele braço mecânico aparentemente tão grande, estabanado e destruidor, transforma-se diante do novo silêncio do meu olhar. Aquele homem conduzia aquela imensa, poderosa “mão” com tanta agilidade que ela executava tanto os movimentos mais grosseiros de arrancar e derrubar, quanto os mais suaves, eu diria, delicados. Em alguns momentos cavava lugares tão de mansinho, tirando só um pouquinho, chegando a alisar com doçura certas áreas com o dorso da “mão”, como a mãe construindo um castelo de areia com o filho pequeno na beira da praia, tirando um naco aqui, apertando um pouco ali, e depois arrematando tudo com pequenas batidinhas, deixando a área em volta bem lisinha e bonita. Havia ali um perfeito equilíbrio entre o bruto e o sutil.

Sim, entendo, vejo que é preciso vestir estes corpos físicos, aparentemente densos e desengonçados, assim como vestimos um collant flexível, como uma luva perfeita, do tamanho certo, bem adaptada à nossa mão. E conduzi-los na retirada dos entulhos das velhas crenças, abrindo nossos caminhos bloqueados, aparando os barrancos das crises, pois de certa forma, estamos trazendo o Espírito Imenso para uma sessão, daparentemente muito óbvia, de trabalho manual. E ainda assim, deslizá-los com arte e gentileza, a mão leve, cuidadosa, que embala o berço na noite, acolhendo o filho; a mão que anota, traduz a visão do sonho, a certeza de outros universos, implementando-os no mundo dos homens .

Há que se enviar uma porção desses corpos para baixo, com muita determinação, para que uma espécie de raiz penetre fundo, chegue ao centro da terra a lá fique aterrada, como uma âncora. E é preciso expandi-los para cima e para os lados, como uma cruz, que bem fixa na Terra, tem a cabeça nos céus e braços abertos sem medo de abraçar o mundo!

Adapta-te! Ajusta-te! Não com um embotamento imbecil, como se não soubesses de todo o resto! Mas com sábia alegria desapegada de quem já viu e ainda verá passar muita água por debaixo da ponte. Aprende a ir e a voltar. Atravessa os mundos, explora o espaço entre eles, mas mantém-te atento, consciente, lúcido. Nós podemos qualquer coisa e este corpo não passa de uma ferramenta especializada. Use-a. Aceita este corpo e ele servirá como uma caixa de passagem, transformando, transcodificando, levando a energia até onde ela precisa e pode chegar.

A Luz do Centro tem como atravessar todos os tipos de poros. Lembra, cada átomo tem também o seu Centro que, ativado, replica a Luz conduzida e expande-a ainda mais. Respira, querida. Tu és um elo, tu és uma versão e tu és também a Fonte, neste corpo.

(Grata, Eu que me habita e que me assume, quando eu recuo, relaxo e assisto-escuto. Creio que anotei tudo, ou pelo menos a maior parte do que me veio agora, enquanto a camionete segue para São Pedro de Alcântara.)

Que SOU EU, em meio a esse conclave? Quem és TU que olhas através dos meus olhos iluminando velhos sistemas configurados? Quem és Tu, Coisa linda?! Quero ficar Contigo e Te conhecer.

Maria Helena Ferraz

A caminho de São Pedro de Alcântara, manhã de 05 de junho de 2009.

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