segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Vida após a Morte


Em São Paulo, entre vôos, nessa nova vida sem mais pais encarnados, tendo ajudado a levar a “casinha-envólucro” que mamãe ocupou nestes 82 anos para cremação em Vitória, ES. Como ela resolveu trabalhar fundo até o final, o cenário teve direito à superbactéria, a marvada MRSA, e ela, invadida por todos os lados pelos equipamentos de UTI que pareciam ainda mais “megalomaníacos” em função delazinha estar tão pequena e frágil. Valente mama, que escutou os rituais de despedida de cada um dos 9 filhos, cada um ao seu jeito, estilo muito próprio, no seu tempo, na sua maneira de ver, de sentir seus afetos, seus medos, e depois da luta, seu desapegamento. Belos irmãos. E nós, em nossas estórias de “você reparou como ela olhou concordando”, o que eu senti, o que sonhamos, segundo Yasha, a versão do piloto, a do co-piloto e a versão verdadeira. Só que essa objetividade é nonsense, na prática não existe! Valente, mama, cujo olhar inteligente de escorpião, direto no olho, esteve presente até quando foi possível. Navega querida, o mar vasto é teu!

Velório cheio de muitos ganhos, recuperando contato com primos queridos, recuperando inclusive aquela via particular de acesso/curtição estabelecido na infância e aquele ângulo de retroalimentação e aprendizado únicos que apenas aquelas pessoinhas queridas sabem estimular dentro da gente, daquele jeito. Grata à minha mama ainda por mais isso.

Retorno acrescida. Curioso esse fato: a morte dos pais nos preenche. Ficamos mais fortes, mais amorosos, menos desvalidos. Talvez porque agora eu me torne finalmente a mãe, e não mais a filha. E como morte é sempre uma questão de definição, sinto minha mãe mais viva do que nunca, e eu, assim ampliada, numa gratidão imensa por mais uma vez ter recebido dela a Vida.

São Paulo, no Ap que o Yasha divide com o Zé Colméia, Bruno e outros comandantes enquanto estão entre vôos, à moda de casa-fora-de-casa, assim como nós mesmos aqui no planeta, cumprindo escala. Está rolando um violãozinho, tudo gente boa. Enquanto nosso vôo para Floripa não vem, me lembro que tudo isso coincide com meu segundo retorno de saturno.

(O mais louco de tudo é o Zé Colméia dedilhando o violão, enquanto conversam sobre estórias e bravatas da profissão, já que piloto é piloto em toda a parte, e de repente, numa inconsciente lembrança de sua própria infância ele brinca com as cordas, e paro de escrever, impressionada, enquanto ele toca ”mãezinha do céu, eu não sei rezar, só sei repetir, eu quero te amar. Azul é teu manto, branco é teu véu, mãezinha eu quero te ver lá no céu”. Cantei isso para a mama, sussurrando em seu ouvido, enquanto ela, entubada, estava em sedação profunda. Cantei algo que ela mesma me ensinou quando eu era pequena. Algo que para ela e para nós fazia sentido, numa linguagem que ela conhecia bem, direto ao ponto. Esse guri-comandante de forte sotaque paranaense, uma vez também aprendeu a modinha com sua mãe. Embora neste momento, justamente esta musiquinha, tão antiga, tocada assim, displicentemente, no violão de um menino tão novo, me pareça algo tipo surreal. A sincronicidade mais uma vez atravessa escancaradamente nossas vidas.)

Fui

Maria Helena

07/02/2011 às 11:13

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

MULTI-NATUREZA













Relendo e recanalizando alguns textos arquivados, tomei consciência, de repente, da qualidade do campo a minha volta. Senti o quanto esta simples casa aqui do Bom Abrigo é um lugar perfeito para se entrar em contato com esse imenso universo contido em cada detalhe de tudo que há. A casa do sítio, em São Pedro, me parece igualmente propícia. Estar na caminhonete estacionada em frente àquela loja enquanto Vitor vai ao banco, contemplando aquela única árvore espremida na calçada, também é um lugar na Terra bem extraterrestre, lugar de conexão interestelar. Talvez porque nossa verdadeira casa não esteja em nenhum lugar físico específico, talvez porque toda a boa substância esteja sempre ao alcance em toda a parte, talvez porque haja em mim certa militância esquizofrênica que insiste em criar nichos, atalhos, túneis que me teletransportem seguidamente para o Agora Infinito, chego à conclusão de que essa coisa local é mesmo equivocada e que Eu Sou em tudo que há e que amo esse pertencimento.

Em tudo me vejo, tudo me remete informações importantes sobre essa estranha que Eu Sou e atenta, aprendo. Talvez por essa permeabilidade, por esse reconhecimento de identidades, na sala de consulta homeopática tenho enorme dificuldade em descrever objetivamente o que Sou Eu, a que venho, onde está meu dodói, o que produz o quê neste meu corpo encarnado, fazendo-me ansiar por aquele preciso lado virginiano que sempre define e fecha as coisas numa boa, aquela consciência corporal cheia de começo, meio e fim que já vi em outros e que tenho enorme dificuldade em manter. (O que será de mim quando Netuno finalmente entrar em Peixes?) Assim, enquanto Vitor não vem, aproveitando as janelas do carro, cá estou eu me experimentando naquela árvore plantada na aridez da calçada, entre o estacionamento da loja e o banco, do outro lado da rua, crescendo, inespecífica, em meio ao nervoso trânsito paralisado, aprendendo a buscar alimento em fontes invisíveis, na verticalidade, visto que a energia circundante se esgota no calor, na correria, na luta pela melhor vaga, no vazio, nos sonhos de fim-de-semana, na compra e venda de mil e uma bugigangas para os pequenos reparos em nossas pseudo-moradias. Há um universo inteiro, inteligente e organizado, contido nessa forte-frágil árvore empoeirada que ninguém vê. Aprendemos a ver-reconhecer apenas determinados espécimes, figuras, formas pré-catalogadas. Esse catalogozinho é um tanto fuleiro, mas seguimos com ele mesmo assim. A árvore cumpre ali um papel do qual não tomamos ciência, exalando, transpirando cura, conectando céu e terra, pulverizando sua paz vegetal num ambiente grande demais para sua pequena envergadura. Assim, embora seja uma afronta para nosso ego, no lufa-lufa do dia-a-dia não tomamos ciência de muita coisa. E eu ali, alerta à Presença da árvore em mim, mas, ao mesmo tempo, recebendo em meu interior o cidadão barrigudo, suado e comum que passa pela árvore sem fazer contato, tão anônimo perante o mundo quanto ela, mordendo, apressado, algo que parece uma banana recheada, ou uma salsicha empanada, correndo atrás da sobrevivência. Definitivamente, Sou também essa figura humana que não está nem aí. É preciso reconhecer esse lado renitente, consumido, que não está nem aí, e colocá-lo suavemente ao abraço da árvore. Eu sou o homem barrigudo e a árvore, agora tomados por esta nova perspectiva reconciliatória, novamente parte da mesma substância fundamental. A árvore e o homem passaram a existir para mim, em mim, embora, paradoxalmente, sempre tivessem estado lá, como se em meu centro, algo meio que conhecesse detalhes desse pertencimento. Mas hoje, ao visitá-los, ao acolhê-los, experimentei suas vidas como aspectos de meu Ser. Mas quantos aspectos, Senhor, existem em meu Ser? – Todo o universo manifesto e imanifestado! Vitor diz, lá da sala, que o fim de semana está molhado e que já está escurecendo. São exatamente 16:04, no relógio do meu laptop, neste domingo, 05 de dezembro de 2010, horário de verão, enquanto escrevo. De fato, uma espécie de noitinha invernosa está descendo precocemente, neste final de dia de primavera, no Bom Abrigo. Então, eu me dou conta do quanto tenho a ver com a perturbação do clima, que em meu tosco estado de consciência atual estou na causa do aquecimento deste mundo, dessa Era do Gelo que se avizinha, dessa transformação, que por destruir pontes e romper com as estruturas, também é libertária, e que se faz presente em cada trecho do espaço e do tempo, como os percebemos, no coração de todas as células. E checo minhas criações.

Penso que em outros tempos já vivemos dias de muita coragem quando nada nos detinha e “respirávamos” à plena, quando ousávamos desbravar mundos, enfrentar a ameaça das fogueiras, quando brilhava diante de nós a Luz e, simplesmente íamos atrás daquela claridade. Era mais fácil interpretar, focalizar o “inimigo” fora de nós. Assim: nós contra eles. Hoje olhamos a Vida através de outras lentes, de outro paradigma que segue se desvelando. Parece certo que em algum momento, em algum ponto do percurso houve uma queda, uma desorganização no Servidor, uma desorientação do foco, um olhar que se voltou excessivamente para fora, e por falta de referência mais concreta – pois que passamos a depender disso, da referência concreta, desse sextante equivocado que neste mar, mede mal o ângulo do horizonte humano e a Estrela – por falta de outra explicação atribuímos a causa desse desassossego a um trauma de infância, a uma encarnação em particular, ou talvez a mais de uma, que nos marcou pela contenção e pelo medo. Quanto a mim, apesar de saber, por exemplo, como foi um tempo duro, o dos mosteiros da Idade Média, e como esse passado está inscrito em minhas memórias celulares, e como isso, de certa forma afeta o futuro, até essa ilusão linear confortadora de causalidade simples já se desvanece quando respiro no Agora. Toda essa história comprida e seus ângulos de inserção em meu sistema, que pode ser novamente acionada dependendo da correta estimulação, tudo isso vai se distanciando de minha rotina de patrulhamento, vai se resumindo, transformando-se na certeza de que o universo inteiro está dentro de mim mesma, na constatação de que a luta não é ferramenta que resolve, mas pelo contrário, agrava, e que tudo, absolutamente tudo é rico em informações urgentes e inadiáveis sobre a multi-natureza do meu Ser, o qual só encontra realização não na mórbida escavação do passado, mas quando permaneço no vasto fluxo do eterno agora, plugada no processo de assimilação-expansão ininterrupto ao qual o “meu” homem barrigudo resiste, comendo o treco-fast-food-frito!

Algo dentro de mim diz que é preciso recordar a coragem para trabalhar o medo, a resistência, a paralisia, já que tudo ao redor, digo, tudo que consta do manual, que forma a massa crítica, reconduz ao velho. Que novamente é preciso ousar dar um passo além de nosso tempo, e construir, sem saber bem como, esse Fio para não sabemos onde, e viajar sorrindo, amando o processo de aprender e de caminhar. Não temos como avaliar a exata medida das coisas, mas sabemos que ela vai além das medidas estabelecidas, e também que esse equilíbrio é delicado. Delicada é essa nova forma de ousadia que ora contatamos, onde o enfrentamento e a “luta” cedem lugar à entrega ao Mundo Unificado, mudando radicalmente a concepção das coisas. A fase atual pede, sobretudo, conexão com a Consciência de Paz para que se entre em sintonia com o fluxo dessa Rede de Sustentação Interna que produz sincronicidade na Rede Externa.

Por outro lado, definitivamente, não nos é dado parar, passar a tal borracha por cima e dormir na rede, embalando-nos no sono do esquecimento. A vida, hoje, faz questão de nos lembrar, a cada momento, de que o caminho é para frente, embora nenhum modelo já feito se encaixe em nós, como a roupa de criança que não cabe em nosso corpo crescido. Basta recuar um pouco e um profundo sentimento de insatisfação toma conta, caminho sem volta, sinalizando que é impossível tornar a viver pelos velhos padrões. É preciso destapar o ducto, liberar o fluxo desse éter, néctar inédito. Nada mais nos satisfará. É, no entanto, um projeto de tal magnitude o contato com a Realidade que a estrutura da personalidade em si, sem a ajuda daquilo que chamamos de Espírito, não está equipada para suportar. Tudo e todos são aspectos do meu Eu exteriorizados, em mutação e ajustes, aspectos que, enganosamente, aprendi a supervalorizar ou a rejeitar, e que se colocam diante do meu olhar para serem integrados, tipo, tudo o que vejo está em mim. No entanto, cada um desses seres – partes do meu Eu - tem seu projeto próprio, mineral, vegetal, animal, infra e sobre humano, sua visão de mundo, uma trajetória que passa por avenidas que o outro não escolheria, sua maneira própria de rir, de gostar de maionese de batata ou de suco de melancia, sua própria tonalidade criativa, colaboração para a ampliação daquilo que a Vida significa. Simplificando muito a questão, falando por analogia, é mais ou menos como se cada um olhasse do ponto de vista de cada casa e signo do zodíaco, e suas múltiplas combinações, vendo a vida sob diferentes perspectivas, brilhando em certas áreas e prevaricando em outras, com fluxos livres de condução de energia em alguns pontos e enorme tensão em outros. Embora esses seres pareçam, ao olhar descuidado, tão diferentes entre si, subterraneamente nossos elétrons conversam, revelam uns aos outros seus segredos mais íntimos sem qualquer filtro, barreira ou pudor, não importa onde, neste universo, estejamos, enquanto mentimos descaradamente pelo lado de fora do invólucro, tentando manter um relacionamento conveniente ao nosso traquejo social, criando um resultado confuso. Contudo, entre mortos e feridos, entre um insight e outro, movemo-nos em consciência, cansa-nos representar os velhos papéis estereotipados e estamos aprendendo em ritmo acelerado a lidar com essa multi-natureza imensa, com esse múltiplo e Uno Ser que Eu Sou. Às vezes chegamos a pensar que perdemos de vez o julgamento, ou quem sabe, o juizo, o controle antigo, para percebermos mais adiante que nem tanto. Mas, vamos soltando antigos apegos conceituais e já caminhamos mais livres, unificando-nos, dando passos mais consistentes em direção ao Amor, estado que só manifesta sua plenitude no agora. Como um ímã, a Revelação nos traciona em direção a uma multidimencionalidade ainda mais ampla que só acessaremos através da unificação desse primeiro estágio.

A cidade costuma "fechar" nesta época para as férias de final de ano, mas algo muito importante está nascendo. Não há férias! É tempo de mutirão! É tempo de foco, da mais completa atenção, de manter a lamparina acesa durante a noite, compreendendo os símbolos à luz do dia. Este é um dos mais belos e desafiantes tempos de se viver! Não é momento de se ficar colocando algodão entre os cristais, morrendo de medo de quebrar aquilo que já foi rompido! Parece que tudo que se pede de nós é que continuemos a seguir o brilhante Fio de Ariadne até o centro do Labirinto. Focado o Centro, sustentada a Ligação, finda o medo, cai o pano, fim de cena, fim de jogo, abre-se o canal de travessia para o novo estágio, plano, dimensão de oportunidades. Reencontro com nosso Ser Alado!

Há dentro de nós, por direito hereditário e por clamor, a mais perfeita Força e todo o kit de ferramentas para continuarmos e chegarmos ‘lá’, através do Caminho do Coração. O ano que se avizinha promete! Sinto isto ao constatar esse meu novo envolvimento com a árvore e o homem barrigudo. Neste espírito, seguem os meus mais sinceros votos de um feliz ano NOVO, a partir do AGORA.

Amor, Junto,

Maria Helena

Florianópolis, 05/12/2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

De olhos bem abertos


Amanheceu o dia e olho, luz na face, porta afora, para o mundo refletido do meu interior, de minha pequena sala de projeção particular, dessa caixinha compacta, espaço não-local de informações, túnel intercomunicante que guarda os segredos dos universos, universo múltiplo que Sou, único Centro a ser desvelado, sintonizado. Estou na soleira da porta, no limiar, ora totalmente imersa na claridade, ora voltando para registrar aquilo que esqueço quando desligo o projetor. A Fonte é sempre cristalina. A caverna se abre para novos mundos. O espaço interno tem muitas moradas, estações onde minha pequena nave atraca, pernoita, permite-se recarregar. Somos e estamos em trânsito, e no fluxo dissolve-se a corporalidade atribuída à experiência nos recintos, entre quatro paredes, no quadrado, no beabá da existência física linearmente codificada, em meio à pressão da chamada vida dos outros, autoridade dos outros, escondirijo de Mim mesma. Impossível corporificar o cambiante Fluxo Vasto. Amanheceu, me desvencilhei e desadormeci.

Palavras são palavras, querida, mas em sua liberdade, a Realidade extrapola cada uma, mesmo quando as unimos criativamente. De certa forma, se você não conhece o estado por trás delas, tornam-se parte da armadilha. Além do convencionado há uma nota, um timbre, um certo ar de montanha, montanha muito alta, que amplia o peito e dissolve os limites entre essas coisas externas que nos vestem e separam, e nos tornamos receptivos, unidos e nus. Há esse pano de fundo conectivo comum. Por isso peregrinamos às montanhas físicas do planeta, em busca de algo que replique um pouco a lembrança desse ar, que nos desprega da cola hipnótica das emoções humanas, perdas e ganhos, dos acontecimentos seqüenciais. Há uma cadência, concatenamento, uma sincronicidade, um elo não teorizado, uma surpresa, um conhecimento, reconhecimento, integração, pertencimento, estado de amor inerente re-encontrado. Há alimento. Que, à moda de porta, pode apenas ser sugerido, através da palavra, como estímulo à intuição.

Céu interior, profundo mar alado subterrâneo e a arte de mergulhar... Estado de mergulhamento e desadaptação... Através dessas correntes de águas celestes rompemos os protocolos, a programação, a inserção do foco na posse do concreto como fonte de satisfação, caminho que quanto mais é percorrido mais nos leva para longe do êxtase. A porta segue aberta, mas para vê-la ha que se inverter o olhar. Os olhos, quando abertos, olham para dentro. Quando se começa essa inversão, vai se tornando cada vez mais irreversível a travessia. Toda imagem simbólica vai, então, abrindo portas e janelas em meio ao burburinho, em meio às ilusórias relações de causa e efeito plantadas na mente, portas para o incomensurável, para o centro da mandala. Aqui também é um outro lugar, outros lugares. Você, eu, somos o frescor da montanha, somos pessoas renováveis, ainda não descobertas, outros-algos-além-de-pessoas, muito além da definição. Sustentado este estado, libertando-nos da perturbada, complicada versão mascarada, do modelito aprisionado adotado como veículo, como seres simples, leves, alegres que somos, através do fluxo do silêncio passamos a expandir a mais cristalina e irradiante manifestação. Pouco, pouquíssimo cabe no embornal da palavra se olhos e ouvidos não estão afinados com o coração. Mas a orquestra, a sinfonia do Real segue, em pleno concerto a um passo, a uma respiração daqui.

Acordei e a porta estava aberta. Talvez tenha encontrado uma chave enquanto dormia.

Florianópolis, manhazinha fora do tempo em 14/12/2010

Maria Helena

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A CRUZ NO CÉU

Li ainda hoje um excelente texto postado pelo astrólogo João Acuio de Curitiba, no que diz respeito à mecânica de ciclos. Aproveito para fazer alguns comentários, a guisa de complementação.

Atualmente, pelo medo de sermos confundidos com os medrosos bebês-chorões, apocaliptiqueiros de plantão, palavras de uma amiga minha, cheios de ai meu deus me salve que o mundo vai se acabar, terminamos muitas vezes por minimizar, ironizar e até banalizar as transformações ora em curso, e dizemos que é só mais um dia atrás do outro sem nada de excepcional, numa atitude de eu gosto mesmo é de enfiar meu pescoço até o talo no buraco da avestruz. O difícil mesmo é percebermos o essencial, que já se disse, é invisível aos olhos, e que faz a costura por trás dos fortes fenômenos que ora acontecem, em picos, em nosso tempo humano, devolvendo-nos para a consciência de que já somos exatamente Aquilo em que mais queremos nos transformar, embora por estas paragens estejamos sempre navegando entre o reflexo do reflexo, na sala de espelhos, em meio a projeções mentais.

Nesse mencionado texto, o astrólogo explica o que é uma lunação, usando o raciocínio para explicar como os aspectos entre planetas se formam, como crescem, amadurecem e se concluem, em meio a tantos outros ciclos em andamento. Muito bom para todos, ótimo para quem está se iniciando no entendimento do vocabulário astrô. A explicação dele está enxuta, simples e clara e ajuda-nos a compreender que a criação humana, minha, sua, nossa, individual e coletiva sofre uma evolução no tempo causando efeitos, e a alteração de sua rota, conseqüências, dá-se na medida em que, aproveitando-nos de impulsos propícios, fazemos novas escolhas, diferentes criações, upgrades para subtons mais sutis daquela mesma energia/informação, anteriormente compreendida em um nível mais baixo, por vezes em meio à pressões e agonias resultantes de nossa própria fabriqueta caseira.

Sendo este mundo a Terra de Maia, ao mesmo tempo em que tudo é ilusório, nossa própria astrologia incluída, temos optado por ilusões dolorosas, e a própria palavra transformação está sujeita às mais diversas interpretações, a grande maioria tendendo apenas a insinuações de perda e falta.

Este é o mundo da ilusão. Há vidas interpenetradas em tantos níveis, somos multidimensionais, habitamos verdadeiramente muitos universos, temos vida atuante em “locais” e contextos diversos, paralelos, prováveis, improváveis, há consciências que trabalham criando infra-estrutura para que esse show continue e não nos damos conta na prática de tudo isso, de nada, ou pouco dessas possibilidades, ficando perdidos no trânsito. Vide o excelente filme “Origem” que está sendo exibido neste momento nas salas de cinema da cidade. Assista-o várias vezes, deixe que surjam as questões. O que é o estado do sonho? Você está mesmo acordado? Estaria andando em círculos? Aproveite o labirinto e fique um pouco no vazio, abra-se para este vasto oceano de possibilidades... Precisamos de mais silêncio, meu irmão!

Estamos presos em modelos de crenças, de criação, uns contidos nos outros, sonhamos juntos sonhos por vezes aparentemente tão significativos, à princípio tão lindos, mesmo com suas doses habituais de paranóia, que apesar de um certo gosto cada vez mais ansioso, cada vez mais acre no final da colherada, não queremos , não sabemos soltar esse filme de mau gosto. Precisamos de mais silêncio diante de nós mesmos, sentados em meditação, como estamos, no alto da montanha, olhando para esse ponto central em nossa cabeça, precisamos passar para dentro do espaço acolhedor de nosso coração, nas redes penduradas em seu alpendre ajardinado, apalpando suas paredes cálidas e contemplando através de suas janelas a paisagem fantástica do Ser real de cada um. Precisamos religar as peças dentro de uma nova configuração.

Falamos em ciclos. Há, no entanto, ciclos bem maiores em que estamos envolvidos dentro de um referencial da raça humana, dentro de um referencial do projeto/experiência que fazemos nesta dimensão concreta, limitada, à portas fechadas, no escuro, algemados na caverna, observando sombras, escutando vozes entrecortadas. E nesse sentido, como não nos aventuramos em consciência pelos caminhos paralelos, pelo caminho direto, existe uma série de agendas das quais podemos estar menos atentos. Por isso a necessidade de um esvaziamento, para pararmos de oscilar entre culpa, medo e a ironia da mente intelectual que nesse arroto pretensamente tão nobre, encobre sua prisão no mesmo jogo.

Estar na Matrix, mas ainda assim em Pandora, estar diante das mudanças de ciclos como observadores dos mundos interpenetrados, do uno universo estendido, atentos ao sonho dentro de sonhos – já diziam que somos sonhos de Krishna – assumindo a direção intuída pela união da cabeça com o coração. É hora de viajar, extrair significados relevantes para nós mesmos do fundo do nosso próprio saco, abrir as velas desse novo veículo que se forma diante de nós. E por isso mesmo, por favor, amigo, não acredite na minha cruz no céu, nem na de nenhum outro astrólogo, seja seu próprio astrólogo, até porque não vai lhe adiantar nada a verdade do outro na hora que você precisar da convicção para dar o passo. Seja comandante de tua nave espacial. A internet, representante da “outra” rede, pode ser uma excelente escola. Aprenda tudo sobre o significado de plutão, de urano, de saturno, de júpiter, vênus, marte, dos signos astrológicos, sobre o que é uma conjunção, uma quadratura, uma oposição, o que é a cruz cardinal. Brinque com esses significados, com todos os significados de sua vida, deixe-os em banho-maria, marinandoovernight, deposite-os no altar de sua percepção profunda e prepare-se para o insight, enquanto você vai varrer o pátio do vento da noite passada. Mergulhe fundo e atravesse o embasamento raso da escolinha tridimensional e entre em mar aberto, no vasto presente. Deixe morrer o que conhecia, deixe apodrecer sem dó, pois nenhuma bagagem, estrutura velha e viciada precisa verdadeiramente lhe prender e não há mais como carregá-la. Fique apenas com aquilo que lhe parecer imortal, e será pouca coisa. Use conceitos intermediários até chegar aos melhores, e vá descartando tudo o que não mais serve, solte o ranço, ative o Fogo. Livre-se dos excessos. Ouse ir onde nunca tinha ido, chute o balde junto com o pau da barraca, veja a magnificência do novo se abrindo a mil pelo universo o tempo todo. Você vai ter alguns frios na barriga? Com certeza! A casinha vai cair? Com certeza! Mas nada disso doerá de verdade se você tomar gosto pela estrada! Na estrada estamos vivos, vá ver! Assuma a sua Cruz no Céu e atravesse para o outro lado! Prossiga além da vontade, entregue-se finalmente! Assim veremos nossas bravatas, nosso brio varonil infantil, como um castelo de areia, e a alegria, as ondas dos novos ciclos varrendo nossas praias, até que tenhamos uma nova cara/configuração. Você vai agradecer por este parto ao descobrir em si mesmo este, desde sempre esperado, belíssimo bebê.

Há que se assistir de novo a Origem. E silenciar no sonho. Enquanto me exercito, pego minha pinça e volto ao meu mosaico.

Maria Helena

Florianópolis, 09/08/2010

Ai vai o link para quem quiser ler o texto do João Acuio:


quarta-feira, 23 de junho de 2010

INCLUSIVIDADE


Cá estou eu dedilhando este mosaico. Há uma conversa, uma parceria com o inteligente sentimento das coisas, das formas, das cores, cujos tons, quando organizados de certa maneira, criam estados de espírito, músicas. Temos também a felicidade de encontrar essas músicas inusitadas quando obedecemos ao delicado impulso da inspiração, quando ela nos visita, nos convida a sentar e a escrever, a debruçar o olhar através do limiar de separação dos mundos, nossa nau ultrapassando as últimas barreiras colonizadas desse vasto oceano subjacente, desse éter, ar, aroma, desse impalpável campo imenso de onde tudo brota, contemplando idéias, insights provenientes desse mar aparentemente impreciso, recebendo as ondas desse mundo, deixando-as trazerem, por instantes, suas límpidas águas até as areias de nossas praias. A criação se faz, então, em conjunto, material soprado em nossas velas, e nós, ouvidos surdos para o burburinho humano, navegamos perseguindo esse inefável som. É preciso colocar mais verde, aquele da pastilha de vidro chinesa, aquele tom, e repeti-lo de novo mais acima, e ainda mais uma vez.
Estamos todos e tudo indissoluvelmente ligados. As pastilhas “Málaga”, importadas da China, que ainda se obtém em pronta entrega, só pagar e pegar no depósito da loja, uma, duas placas, não de todas as cores, pois algumas delas estão esgotadas e é preciso esperar o próximo carregamento que não se sabe dizer ao certo quando virá. Mas existem várias outras, infinitas possibilidades fabricadas por aqui mesmo, as de cores mais sólidas, de pigmentos mistos, algumas iridescentes, e as madreperoladas. Olho os meus dedos cortados. A quantas mãos se faz este trabalho? As pastilhas viajadas, as fábricas, os fabricantes, os pequenos fabricadores, operários de baixo custo, custeando meu mosaico. A velha mesa de fibra da Vó Lila, a excelente torques com roldanas, o Vitor que conhece as lojas de ferramentas melhor do que eu e que me ajudou a descobrir essa torques aqui mesmo em Florianópolis, os vídeos-aulas do Youtube, o criador do Youtube, o meu laptop cor de rosa que alguém um dia concebeu e eu comprei naquela loja do Beiramar Shopping. As amplas janelas de minha sala e a luminosidade que passa por ela durante o dia, os passarinhos cantando lá fora, a chuva que tem caído, o vento que tem soprado, o frio que gela meus pés desencarnados e que eu engano esfregando um no outro diante do aquecedor, o João chegando da faculdade de cinema, seu beijo, seu observar silencioso, nossa sopa de tofu, seu videogame, nossa parceria pela madrugada enquanto contemplo a grande tapeçaria branca e preta com a face de Buda, presente cheio de presença, tudo me lembra que sou apenas essa mão de dedos cortados, mas meu corpo é feito de todas essas personalidades e suas falas, sem o que, não há mosaico. Pitucha, a gatinha da casa, sempre a meu lado, com seu olhar impressionante e suas muitas vozes, certamente compõe o clima, dá tom ao silêncio onde mergulho. A deusa do fogo sobre a lareira, fabricada em Bali, de olhos fechados em meditação, a face da serenidade, enquanto lixo algumas tesselas em meio à poeira que involuntariamente respiro, nada pode ser excluído, tudo é parte da sintonia, sinfonia da qual participo, que catalizo, de alguma forma alquimizo e exprimo.
Amanheço o dia, faço a cama, tomo o café passado pelo Vitor. Vou ao banco, ao supermercado, cozinho o arroz e o feijão, o inhame, uso o alho do sítio. Varro o quintal, recolho os galhos que o vento quebrou, observo as centenas de pitangueirinhas que tem brotado e as ameixeirinhas que insistem em atapetar os canteiros, lavo os cabelos, pinto e bordo como uma pessoa comum. Por isso entendo a gente do mundo. Quando sou psicóloga, agradeço ao que me ensinam, à parte que serve a mim e ao que vejo que serviu ao outro. Os amigos me enviam notícias, trocamos e-mails, uma rede que presta um serviço surpreendente, replicando a “outra” rede que fica logo aqui, do outro lado. Há Amor em toda a parte e não há como estar fora dele. Há inteligência e informação em tudo que vive, e tudo vive. Eu Sou Algo em meio a toda essa Vida. A arrogância, a vaidade, o orgulho humano são do tamanho de nossa ignorância humana. Não há produção alguma independente. Tudo é interdependente. Ao assinar a autoria, lembre-se de incluir a paisagem.
Maria Helena
Florianópolis, 23 de junho de 2010, véspera do aniversário do Yasha

terça-feira, 13 de abril de 2010

Onde está Maria Helena?


Dei uma olhada em meus e-mails antes de vir para São Pedro, pois fazia tempo que não passava por ali, e havia muitos na caixa de entrada, de amigos, de pessoas da lista querendo saber onde eu me encontrava, se estava bem de saúde, viajando, o que estava acontecendo, porque havia sumido daquele jeito, todos os bilhetes muito amorosos, pessoas lindas, graças a Deus! Estou ótima, em alegria, sob o Sol! Preciso dar notícias, pensei eu. Mas eram muitos os e-mails individuais e embora haja um grande amor pelas manifestações específicas de cada alminha que ali se expressa, confio que nossa ligação se mantenha por canais mais invisíveis, de consciência coletiva, e longe da ilusão da separatividade, sopro carinho através desses túneis até o coração de cada um. Havia certa urgência em fazer o supermercado, as compras da semana para casa e para o sítio. E, compras feitas, já estava com o pé na estrada!

Seguia observando as janelas dentro e fora de mim, revezando de uma para outra, para que as paisagens de ambos os lados me trouxessem sentido e conforto, levando em consideração essa árdua e prolongada estadia na terceira dimensão, ciclo que tem exigido confiança e entrega à Luz, mesmo quando nada do lado de fora indica a possibilidade dessa presença. Pelo espelho retrovisor via meu rosto, face/corpo que uso nesta experiência, olhos por trás dos simbólicos óculos de lentes cor-de-rosa, os cabelos compridos – os interessantes fios brancos muito bem mesclados aos castanhos – presos em um rabo-de-cavalo, o lenço quadriculado árabe envolvendo pescoço e peito, a antiga jaquetinha de veludo caramelo, as velhas calças jeans de boca reta, botas azuis de camurça quase até os joelhos – my blue suede shoes , a grande bolsa verde, mole, sobre o colo, creio que um conjunto, no todo, bem aquariano, bem adequado.

Escrevo em minha cadernetinha de bolsa, de folhas cor-de-creme, sem pauta, que melhor servem de pano de fundo para todo tipo de loucura, inspiração sob forma de desenho ou texto. A vida tem esse dom de ser perfeita, seja nestes trajes confortáveis, parceiros há vários invernos, roupas que a gente usa como uma luva, por gostar de não se preocupar, por gostar de respirar; seja na existência deste moleskine do tamanho exato, na caneta que desliza, seja nesta alma-falante que apesar de mim e de minhas crenças, consegue ver por si mesma a essência viva por trás da aparência das coisas, sabe onde se encontra a nossa verdadeira casa. Quando eu crescer, quero ser como ela e penso em crescer logo, como neste instante me sinto crescida, como uma criança que vive da Luz, entrando no reino dos céus.

Vitor dirige em silêncio sincronizado com o meu, enquanto escrevo, sendo assim a melhor companhia para o momento. Pela janela vejo árvores antigas, fantásticas e enquanto nos olhamos, sinto seu campo de influência-proteção e sorrio para elas em profunda gratidão. A vida pulsa em toda a parte. Não há como separar-me disso, dessa intercomunhão. Dependendo do ângulo pelo qual você olha, você pode estar dentro ou fora do templo. Hoje, estou definitivamente dentro dele. Desde cedo ouvi o anúncio, sinto a envergadura de minhas asas e, fielmente enveredando pelos corredores de acesso, respiro anseios de ressurreição.

Enfim, estamos no sítio, minha ‘Ohana, embora ‘Ohana seja um espaço dentro da gente, um espaço formado por sintonia de vibração. As hortênsias estavam afogadas em meio à grama alta e, com esse lindo fim de semana de sol podemos, finalmente, trabalhar ao redor delas, liberando-as para que se espalhem à luz, à beira da estrada. Há o que se fazer ainda por algumas tantas horas, por serem muitas, e sermos dois, os cuidadores. Vitor passou a roçadeira em torno e tirou o grosso, e eu prefiro fazer esse trabalho mais detalhado junto a elas. É tudo muito bonito e me parece um privilégio poder estar assim disponível para esta tarefa, que é, sobretudo, um trabalho interior e de parceria que me permite atravessar janelas e estar acordada no centro do peito.

Metade da semana em Florianópolis, metade em São Pedro de Alcântara. O consultório, talvez em função das buscas de nosso tempo, da premência de respirarmos em alegria como crianças em pomar cheio de frutas, talvez porque seja urgente silenciar, simplesmente soltar, voltar a face para a Realidade, permitir a transformação na orientação da Consciência, está lotado, e com isso tenho fechado as portas quase sempre por volta das 23 horas. Enquanto isso não se equilibra – e penso que logo deve se equilibrar – em vez de me conectar por tanto tempo à internet, ouvi o aviso, resolvi compensar essa polarização caprichando na introspecção, na autenticidade, deixando de lado, conscientemente, as questões repetitivas, resíduos e carências corriqueiras da personalidade em seus conflitos de ação e reação na ilusória dualidade, mosaicando, trazendo a atenção para a confecção das pequenas pecinhas, para as nuances de cores, deixando o coração mostrar onde colocar o que, treinando ser conduzida por esse feeling, pela intuição, trazendo a calma do interior do templo para o grosso da matéria, criando, talvez, uma nova harmonia, tocando a eternidade, de torquês na mão, até as três da madrugada. Algo, de dentro para fora da casinha, está sendo desconstruído, embora o resultado de tudo isso seja experimentado de forma muito diferente pelos integrantes desta experiência. Os ventos sopram, as árvores caem, a terra treme, confundindo os especialistas. Busco inspiração para os signos de fogo. Há que se esperar pelo tempo certo. Algo muito mais inteiro deve ser revelado, mas falta ainda sustentação. Algo cresce dentro do útero, e a pressa em exaltá-lo pode comprometer, romper o veículo/invólucro. Portanto, há que se cumprir esse tempo de gestação sem desviar-se muito, apesar de toda essa simultaneidade. Há que se cortar cerâmica, vidro, polir, colar, rejuntar, silenciar.

Sempre soube que algum dia seria também mosaicista. Começou 2010 e disse, deste ano não passa. Havia uma lojinha no alto da Padre Roma em que se davam aulas para curiosos, iniciantes que nem eu, mas quando fui procurá-la, já não mais existia. A mulher do pai da Grazi, a Rose, tem a casa da praia cheia de trabalhos feitos por ela, quase todos com tema floral – eu adoro flor, diz ela – e, mês de fevereiro, fomos até lá, ver se dava para aprender alguma coisa. Muita gente reunida, almoço sendo preparado, conversamos muito sobre astrologia, o mapa dela, e no final, ela me passou uma torquês e um caco de azulejo para eu cortar uma folha. Elogiou o corte dizendo que eu levava jeito, pois a peça não havia se esfarelado como era de se esperar numa primeira vez. Disse que eu usasse a cola Cascorez-extra. E antes que se conseguisse fazer mais cortes, precisávamos ir, pois Yasha tinha vôo e o trânsito da Pinheira até Floripa e até o aeroporto está sempre engarrafado nos fins de semana, principalmente no verão. Tudo indicando que deveria aprender mais por outras vias.

Então pensei: Maria Helena, você tem que encarar! Vai, mete a cara e se ancora! Respirei fundo e lá fui eu para o santo youtube, baixei tudo quanto é vídeo de gente fazendo mosaicos com seixos, vidro, pastilhas, cacos de louça caseira, sementes, pedras nobres como o mármore, as semi-preciosas e azulejos. Assisti a uns tantos, comprei todas as ferramentas indicadas, juntei louça quebrada, azulejos, pastilhas e rejunte , ganhei algum material e, depois do aniversário do Sourya, do casamento da Arlete e do Vitola no começo de março, depois da visita do Cândido, finalmente comecei. Primeiro uma tampinha de uma caixa de madeira, para ver como era colar as peças e rejuntá-las. Então parti para uma grande mesa redonda para seis pessoas, de fibra, antiga, que precisava mesmo ser reciclada, onde desenhei, como deu, uma espécie de zodíaco, doze mandalas independentes, integradas em um tema unificador, pois fechando cada uma é como se fosse iniciar um novo trabalho, ajudando-me assim a ganhar mais experiência. Vejo que ainda se pode ir além e colocar nesta mesa um céu profundo, cheio de luzes, com estrelas, naves e seres meditando em volta do centro. Gostaria de revelar portais, conexões com os outros planos e dimensões, mas, neófita, volto-me para ela, para o sentimento do tema, e deixo vir o que pode passar por este veículo, por estas ferramentas, neste momento, soltando as grandes pretensões. E é aí que estou, tendo completado o meio, as bordas e cinco signos, buscando entender- me com Leão, tentando permanecer no ponto-de-encontro e amadurecendo, vazia, mas cheia de mil idéias enquanto caminho sem muitos planos, enquanto me ocorrem imagens para o restante da peça, e depois, para muros, paredes, assoalhos, móveis, enfim! Mais uma vez a vida renasce no silêncio, enquanto ainda oscilo e respiro, ainda nesta Terra que nem sempre me parece aquela Terra que desmorona morro abaixo. Certamente, e paradoxalmente, muito está sendo construído para que se veja o que verdadeiramente vive. E como recém-nascida, vivendo o momento mais interessante de minha vida, o único, o atual, sinto a realidade do quanto somos seres criadores, do eterno fluxo de inspiração renovadora que corre através de nós, ondas desse mar infinito onde podemos surfar, passar sempre para o novo ponto, bastando estar atentos, pois que tudo que o coração pode vibrar, em alegria, a gente pode realizar!

Maria Helena

Sexta feira, 02 de abril de 2010, dia bonito de sol.

Quem tiver vontade de ver melhor como o mosaico está ficando acesse o link:

http://picasaweb.google.com.br/mhferraz/MosaicoMandalaAstrologica?fgl=true&pli=1#

terça-feira, 9 de março de 2010

GRANJA HUMANA


Vindo para São Pedro de Alcântara, chuva caindo continuamente, paramos em frente a uma porteira, entrada de mais uma granja das dezenas que estão sendo construídas a toque de caixa pelo interior de Santa Catarina, para conversarmos com um pedreiro. Vitor mencionou que tinha ouvido uma notícia sobre uma tal máquina que haviam comprado aqui no Estado, para ser usada em granjas, quando ocorrem aquelas “pestes” e todas as galinhas são infectadas, e apesar da quantidade imensa de antibióticos, morrem todas – e elas são centenas, espremidas naqueles espaços mal cheirosos, cheiro que se sente estrada afora, muito antes de se avistar a granja. Disse que para diminuir a trabalheira de se eliminar, acabar de matar de vez aqueles seres agonizantes – porque a exploração violenta a que são submetidos já é uma sentença de morte – a tal máquina despeja dentro da granja uma espuma tóxica até uma altura superior a das galinhas, que no desespero de respirar, absorvem o veneno fatal, e se afogam, se asfixiam sem chance de fuga, facilitando a “limpeza” da área. Penso que, de certo, buscaram inspiração para essa “tecnologia” nas “pesquisas” de torturas feitas em campos de concentração. As próprias granjas, em si, são memórias desses lugares.
Apesar de notícias como esta serem consideradas “normais” na atualidade, e até vistas como medidas sanitárias saudáveis, não consigo ouvi-las sem experimentar uma dor profunda no peito. Se o jogo era entrar na densidade da forma e aqui nos estabelecermos, e experimentá-la tão entranhadamente a ponto de nos sentirmos identificados com essa densidade, identificados com apenas aquilo detectável através de nossos sentidos físicos, então essa é uma experiência vitoriosa, experimento que deu certo. Mas havia, no programa original, uma cláusula, uma hora combinada para se virar o jogo, re-incluir todo o resto de nossos poderes, pois apenas uma parte minúscula de nosso ser está aprisionada no visgo da matéria, mesmerizada, empobrecida, destituída, exilada de Si mesma. Há que se acender uma luz, para acharmos o caminho das pedras no escuro, vivermos neste mundo sem sermos por ele seduzidos, cooptados, convertidos a essa crassa religião às avessas. Assim, chegamos a mais um “ponto de mutação”, neste início do ciclo de Plutão em Capricórnio, agora quadrado com Saturno em Libra, vigorosa e incansavelmente rompendo a pesada crosta, o planeta em convulsão, espelhando nossa convulsão interna, matando as estruturas, armaduras que não mais nos servem, até que não sobre, nas relações dentro e fora de nós, nada equivocado. Então a Luz Imperecível rebrotará, na cena do crime! Embora ela jamais tenha arredado um pé sequer do cerne de nossa existência.
(Parei de escrever por um momento para me servir de um pouco de água da magnífica garrafa de vidro azul sobre minha mesa, garrafa que herdei do João, que quis experimentar uma vodka Skyy. A luz da janela incide sobre ela e parece que deixa a água mais gostosa. Me veio à mente uma frase do Hermann Hesse de minha adolescência: “A ave vem do Ovo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para Deus e esse Deus se chama Abraxas.” Não sei se minha memória me trai, se o texto no original se encontra com essas exatas palavras. Abraxas é a união do Bem e o Mal.)
Ao ouvir a tal notícia sobre os métodos de eliminação de "aves descartáveis", ocorreu-me uma imagem que vou aqui transcrever. Suponha que somos uma família. Uma família amorosa. Nossos filhos queridos querem brincar de teatrinho. Como amamos nossa prole, nós resolvemos ajudá-los a criar o cenário próprio onde o roteiro da peça teatral se desenvolverá. Alguns de nós nos camuflamos em árvores, pitangas, alguns seremos animais como pássaros, cachorros, gatos, bois, porcos ou frangos. Alguns farão o papel de minerais, e se transmutarão em rios, vales e montanhas. E alguns ousarão se fantasiar de céu, de sol e estrelas, e num piscar de olhos temos por aqui um Planeta Terra, dentro de um sistema solar numa bela Via Láctea. Todos nós, essa magnífica e unida família, somos belos, inteligentes e amorosos, e fazemos nosso papel com tal mestria, intensidade e perfeição que ganhamos todos os “Oscars” para cada categoria. Então, algo macabro acontece. Nossa prole adoece, enlouquece, cria e infecta-se com um vírus paranóico muito doido e começa a torturar, destruir seus irmãos “de sangue”, agora vestidos de árvores, de montanhas e de frangos, na enorme granja da Terra. Lesada, esqueceu suas origens, sua irmandade, passou a acreditar que o cenário é feito de “coisas”, quando esse conceito em si já é uma piração, acreditar que algo possa não ter vida. Nossa amorosa família, por trás da camuflagem, faz sinais que nossa prole não vê, pois as bactérias - seriam fungos? - comeram-lhe essa faceta da visão.
Imagine que você tenha à mão uns óculos poderosos, muito, centenas de vezes melhores do que aqueles binóculos de visão noturna, desenvolvidos para a guerra. E quando você olha através dessas lentes, abre-se um maravilhoso mundo insuspeitado onde tudo respira e se move, um mundo de energias expansivas complementares que se expressam, aprendem e ensinam, lhe tocam, lhe permeiam, cujo sussurro comove cada uma de suas células e faz você sentir um amor e uma clareza tão intensos que quase dói, quando traduzimos para a linguagem deste corpo físico. Esses óculos existem, vêm incluídos no kit-incarnação. Use-os e você nunca mais vai querer usar outra coisa!
Maria Helena,
Nesta interessante manhã de terça feira, 09/03/2010, aguardando inspiração para retomar o mosaico.